DMV. Luiz Fernando José de Souza
CRMV. 6122
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      As disfunções cardíacas são bastante incidentes sob a espécie canina, aproximadamente 11% da população de cães são acometidos de algum tipo de distúrbio, sendo 75% desses casos Doença Valvular Crônica Degenerativa (DVCD) tendo maior incidência sob as raças de pequeno porte, (Bristol Bio Med Image Archive, 2005), outros 10% são Cardiomiopatia Dilatada (CMD), com maior incidência em cães de portes grande e gigante (Veterinary Medical Data Base, Purdue Univeristy).

      A insuficiência cardíaca (IC) é uma síndrome clínica, complexa, que tem como conseqüência a incapacidade do coração em atender à demanda metabólica do organismo. Esta incapacidade é multifatorial, seja pelo (1) Aumento da taxa metabolismo basal (TMB) como resultado da: (A) Ativação dos mecanismos neuro-humorais compensatórios, (B) Produção aumentada da citocinas inflamatórias; ou (2) Pela redução da capacidade digestiva e absortiva como resposta a redução do fluxo sanguíneo e aporte de oxigênio produzindo volumes de sucos digestivos menores; do mesmo modo, (3) a redução do fluxo sanguíneo para os membros diminui o aporte de nutrientes necessários para o turn over protéico e renovação tissular contribuindo para perda de massa magra; (4) alto índice de pacientes anoréticos, 84% cursam episódios; e/ou (5) por 66% dos cardiopatas sofrem de uma patologia concomitante, seja renal, pulmonar e/ou hepática. Todos esses acontecimentos têm como seqüela a desnutrição do paciente, conhecida neste caso como Caquexia Cardíaca (CxC) que é irreversível. Porém nem todos os pacientes apresentam baixo peso, pelo contrario, no inicio da cardiopatia muitos são obesos que por vezes mascaram suas condições clínica e nutricional.

      O tratamento das cardiopatias deve corrigir ou minimizar as perdas associadas à IC, consistindo em medidas medicamentosas, exercícios controlados e suporte nutricional, cujos objetivos, neste caso são: (1) Controlar o estado nutricional do paciente. (A) Obeso, reduzir o sobrepeso de modo controlado diminuindo a superfície a ser irrigada e fatores que aumentam a pós-carga e (B) minimizar os riscos da CxC; (2) Minimizar os riscos nutricionais para hipertensão; (3) Evitar a sobrecarga nutricional sobre os rins; (4) Suplementar nutracêuticos que melhoram o metabolismo cardíaco; (4) Evitar a sobrecarga hídrica.

      A primeira medida nutricional a ser adotada é avaliar o estado nutricional do paciente: peso, circunferências do pescoço, abdômen e posteriores; pregas cutâneas do pescoço e dos flancos; estado de hidratação; linfocitometria e albumina plasmática; observando obesidade ou desnutrição.

      O segundo passo é determinar as necessidades calóricas e protéicas do paciente através da formula do NEM ((√(√ (peso3))) x 100 Kcal), caso o paciente seja obeso, avaliar o grau de obesidade ((peso atual / peso alvo) – 1) x 100) e aplicar as devidas restrições calóricas ((A) macho com sobrepeso maior que 30% restringir 20%, sobrepeso entre 15% a 30% restringir 25% do NEM e sobrepeso inferior a 15% calcular o NEM com o peso desejado, p. ex.: um cão cujo peso ideal seja 10 Kg e esteja com 11,2 Kg, calcula-se o NEM para esse cão com 10 Kg; (B) Fêmeas com sobrepeso maior que 30% restringir 30%, sobrepeso entre 15% a 30% restringir 35% do NEM e sobrepeso inferior a 15% calcular o NEM com o peso desejado) e posteriormente multiplicar pelo Fator Injuria, no caso do paciente esteja classificado como classe funcional I, II ou III-a o fator varia de 1,1 a 1,2, caso esteja classificado como III-b (ou IV) o fator é 0,8.

      Terceiro passo, determinar a distribuição calórica do alimento, ao contrário do que muitos possam pensar o alimento para o cardiopata deve ser hipercalórico. Como citado anteriormente, 84% dos pacientes cardiopatas sofrem episódios de anorexia e isto se agrava quanto o paciente faz uso de digitálicos e/ou tem comprometimento respiratório, desta forma reduzimos o volume de alimento a ser ofertado ao paciente.

      A dieta para o cardiopata deve ser normoprotéica, de modo que 25% da energia ofertada ao paciente seja na forma de proteína, sendo esta de alto valor biológico e alta digestibilidade, preferencialmente hidrolisada, o que diminui a necessidade de suco gástrico que esta diminuído, e uma relação proteína animal:vegetal 3:1 minimizando a produção de resíduos nitrogenados no fígado e sua posterior excreção renal. É aconselhável a suplementação do aminoácido Taurina (0,5 mg / Kcal) para aumentar o tônus da musculatura cardíaca. Este nível protéico normal reduz o risco do surgimento da CxC.

      Quanto à concentração lipídica, a dieta deve ser hiperlipídica com 40% da energia ofertada na forma de gordura já que 60% da energia utilizada pelo coração advêm da β-oxidação, apresentando o seguinte perfil lipídico, (1) poliinsaturadas (30%) numa proporção de 1 ômega 3 : 5 ômegas 6, o que favorece a redução VLDL-colesterol, os níveis plasmáticos de triglicerídeos, inibem a agregação plaquetária, possuem uma ação antiinflamatória e antioxidante reduzindo as citocinas responsáveis pela inibição do apetite e arritmias e aumento a taxa de filtração glomerular . (2) monoinsaturada 60% que reduz a viscosidade plasmática ao reduzir o VLDL-colesterol (3) e o restante na forma de triglicerídeos de cadeias curta e médias. A fim de melhorar a biodisponibilidade das gorduras é aconselhável a suplementação de L-carnitina (0,2 mg  / Kcal) para favorecer o deslocamento dos triglicerídeos para o miocárdio já que os mecanismo neuro-humorais aumentam a pressão arterial e conseqüentemente a perda de carnitina plasmática pelos rins.

      Em relação à concentração glicídica, a dieta deve conter 35% da energia vinda dos carboidratos, sendo estes de digestão simples (mono e polissacarídeos), com o intuito de reduzir a gliconeogênese a partir da massa muscular minimizando os riscos da CxC.

Alguns micronutrientes são de fundamental importância nas doenças cardíacas:

  1. Minerais:
    1. Zinco – é co-fator enzimático das enzimas polimerases na síntese das proteínas,, favorece a luta contra a CxC.
    2. Cobre
      1. Aumenta a absorção:
        1. Ferro – melhora o transporte de oxigênio,
        2. Glicose – reduz a gliconeogênese, luta contra a CxC.
      2. Em conjunto com o zinco garante a manutenção da palatabilidade.
    3. Magnésio – pontes de magnésio dos ribossomos nos RNAs na síntese das proteínas favorecem a luta contra a CxC.
    4. Potássio – regula o ritmo cardíaco e facilita a entrada de glicose nas células.
    5. Sódio e líquidos – restrição de acordo com a classe funcional para evitar a hipertensão
    6. Cálcio – contração muscular cardíaca
    7. Fósforo – deve ter suas concentrações reduzidas com o intuito de minimizar a formação do ácido fosfórico que em níveis mais elevados leva a esclerose dos túbulos renais, esta medida reduz os riscos de uma Insuficiência Renal (IR)
    8. Selênio – aumenta a absorção das vitaminas e potente antioxidante.
    1. A – (7,0 mg / Kcal) síntese protéica, diferenciação celular e potente antioxidante
    2. C – (0,07 mg / Kcal) catalisa as reações enzimáticas na síntese protéica e potente antioxidante
    3. E – (0,7 mg / Kcal) potente antioxidante
    4. Complexo B – autuam em todo o metabolismo energético, minimiza a quebra de massa muscular.
        • Oxido nítrico – estimula a produção de produção de insulina (anabolizante) aumentando a síntese protéica
        • L-citrulina – ação vaso dilatadora (anti-hipertensiva).

              Quarto passo, fracionamento da dieta, é indicado um fracionamento mínimo de 4 refeições ao dia, ou seja, o valor calórico total dividido no mínimo em 4 porções; isto diminui a freqüência cardíaca pós-prandial, o débito cardíaco e a demanda de oxigênio.

              Em determinados caso em que o paciente encontra-se anorético por mais de 2 dias sem se alimentar é indicado à nutrição enteral, que pode ser feita por alimentos úmidos específicos, com característica hipercalórica evitando-se aumentos bruscos de volume. O mais recomendado é iniciar a infusão com 50%, 75% e 100% do volume programado, mantendo uma velocidade de infusão, em torno de 8 a 10 ml / Kg / h. A Nutrição parenteral está indicada em situações de alteração vascular sistêmica do TGI ou síndrome de baixo débito, com adição de emulsão lipídica, que gera pequena quantidade de dióxido de carbono e baixa demanda respiratória. Recomenda-se iniciar a infusão do mesmo modo que a enteral, tomando o cuidado em evitar um aumento rápido de volume sangüíneo.